terça-feira, 29 de maio de 2012


“Ver o que é justo e não agir com justiça
é a maior das covardias humanas”
(Confúcio)

Juquinha era um menino muito ingênuo. Seus pais, muito religiosos, fizeram-no acreditar em tolos valores, como os de justiça, humanidade, amor e respeito ao próximo e, sobretudo, de que os homens, em essência eram todos bons e destinados ao Céu.

O menino foi crescendo, era magrinho, mirrado, mas seus olhos tinham um brilho especial, meigo, quase angelical. No primeiro dia na escola, Juquinha sentiu muita vergonha. Por falta de dinheiro, pois as posses da família eram modestíssimas, a mãe de Juquinha obrigou-o a usar um par de velhas sandálias havaianas. Até aí, nada de mais. Mas o problema era que, além de morrer de vergonha de andar com seus pés à mostra, Juquinha entrou em pânico mesmo ao ver que as alças de um de seus chinelos eram verdes, enquanto que as outras, do outro pé, eram azuis. Juquinha chorou, implorou à mãe para ir descalço à escola, mas ela, com o dedo em riste, proclamou: – “Meu filho, você não deve se envergonhar de nada nesta vida, principalmente de seus pais ou de sua condição social”.

 
Juquinha, aos sete anos, esconde os pés na grama para não mostrar os chinelos de cores diferentes
Juquinha, conformado e com lágrimas nos olhos, foi à luta, ou melhor, à escola. Lá chegando, passou a ser vítima de todo tipo de chacota. Um dos alunos, gordo e alto, com cara de poucos amigos, conhecido como ‘Bolo Fofo’ decidiu torturar Juquinha, dia a dia, mês a mês. Chutava a bunda do menino mirrado e sentenciava: “– Vacilão!”. Por azar, no mesmo dia em que teve de ir à escola com os tais chinelos de cores diferentes, a escola chamou um fotógrafo para registrar a turma. Juquinha enfiou então os seus pezinhos na grama, com intuito de esconder os chinelos, e a foto ficou assim registrada para sempre.
Pouco a pouco, Juquinha não era mais ele mesmo, era apenas o “Vacilão”. Um dia, após mais um dos tradicionais pés-na-bunda recebidos do grandão, o pai de Juquinha, vendo a cena de longe, ao passar pela rua ao lado da Escola, teve um surto colérico, pulou o muro e agarrou o tal ‘Bolo Fofo’, arrastando-o à diretoria.
A diretora, dona Olinda Pinto de Faria, uma senhora baixinha, enorme, de cabelos curtos e óculos pequenos e redondos, recebeu ‘Bolo Fofo’ em sua sala com especial prazer. Meu pai, satisfeito, saiu triunfante por ter defendido Juquinha, seu filho! Era feinho, mirrado, covarde, mas era seu filho! E ainda tinha aqueles olhos tão meigos, indefesos…
Dona Olinda era o terror da escola. Tinha a fama de arrancar as orelhas dos alunos mais espevitados e indisciplinados. ‘Bolo Fofo’ não fugiu à regra. Teve orelhas esfoladas e as mãos castigadas impiedosamente por uma palmatória. Sim, alunos podiam receber castigo físico naquela época em que não havia um tal de ‘Estatuto da Criança’, muito menos outra tal de ‘Constituição Cidadã’. Era o tempo da ditadura, do olho por olho, dente por dente.
‘Bolo Fofo’ nunca mais mexeu com o ‘Vacilão’. Juquinha ainda seria discriminado pelo fato de ter causado tanta dor e sofrimento ao colega que o torturava. Ao se aproximar de qualquer roda de alunos, recebia a repulsa de todos, que em coro gritavam: -  “– No nosso grupo não cabe Vacilão!”
Com o tempo, Juquinha cresceu e se tornou um cidadão comum, mas honrado. Ainda detesta a mentira e a calúnia, assim como seus pais, agora falecidos, o ensinaram. Juquinha se casou com dona Emília, mulher ímpar, de fibra; tiveram dois lindos filhos. Eles nunca se venderam ou atenderam ao ‘canto de sereia’ de gente falsa, que só faz saber bajular os poderosos para obter vantagens pessoais. Poderosos são assim, com a vaidade maior que o planeta. Adoram ser adulados por puxa-sacos de plantão, detestam ser contrariados. Quando alguém tenta lhes mostrar a realidade, ficam violentos, autoritários, preferindo ser enganados e adulados por aqueles que os abandonarão imediatamente, tão logo caiam em desgraça.
Juquinha, o ‘Vacilão’ tem um propósito hoje de se calar, ao menos temporariamente, colocar uma pedra sobre os temas incômodos, sobre as injustiças que se praticam no mundo. De certa forma, contraria o que seus pais lhe ensinaram. Mas Juquinha está cansado de matar um leão por dia, de falar sozinho numa terra em que muitos se calam por temor, comodismo, ou pior, por cumplicidade. Juquinha deve ser um grande ‘Vacilão’, mesmo. Caso contrário, jamais revelaria confidências pessoais para os internautas que caíram na armadilha de ler este texto tão incompreensível, mas sincero. Juquinha e sua esposa fizeram com que seus filhos recebessem a mesma educação que tiveram. Mas que ‘Vacilões’, não concordam?! Qualquer semelhança com fatos reais é uma maldita coincidência!

*Márcio Amendola

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sábado, 12 de maio de 2012

UMA SECA DE SABER, VONTADE, RESPONSABILIDADE E SOLIDARIEDADE.

                    Somente vivendo numa região castigada pela estiagem que ora se passa é que compreendemos que o mais essencial ainda é produto luxuoso para muitos sertanejos. A seca que se abate sobre a caatinga é algo histórico e surpreende como as medidas para amenizá-la ainda são feitas de forma paliativa e momentânea. No século 19 o Nordeste e, em especial, o Ceará sofreram uma estiagem que ceifou milhares de vida, o que causou a evasão de nordestinos para a região Amazônica, fugindo da peste e da fome sempre muito ferozes.
        A expressão “combate à seca” foi então mencionada para conter o fantasma natural que não dá trégua, mas que por outro lado nada mais é do que a ordem natural das coisas, pois os índios enfrentavam-no com muita coragem e não lhes faltava nada mesmo em tempos de tantas privações. Como a corda quebra do lado dito o mais fraco, a pobreza sertaneja foi castigada mais uma vez e os senhores coronéis nada fizeram a não ser aumentar seus territórios de influência e suas terras, pois o êxodo rural crescia gigantescamente à medida que a chuva não caía no sertão. Juntam-se aí a incapacidade governamental e a falta de solidariedade para com os mais pobres que sempre são as vítimas mais frequentes nessas calamidades públicas tão frequentes e poucos evitadas.
       Açudes foram construídos em áreas de difícil acesso, o que dificultou para que as pessoas que mais precisassem deles pudessem saciar sua sede de dignidade com o único alimento que não pode ser negado, pois é um bem público sem restrições de acesso. Concentraram-se os recursos sempre nas regiões mais industrializadas ou em vias de industrialização e algo parecido com o cercamento na Inglaterra às vésperas da Revolução Industrial aconteceu aqui no Brasil: dificultar a vida no campo e fazer com que milhões de campesinos buscassem as cidades para aliviar a miséria da existência de suas vidas em troca de um salário que não lhes trazia um pouco de dignidade. Assim também se deu quando o sertão importou a opressão e exportou os desesperados da fome para o Sudeste para servirem de peões nas obras favorecidas com as ações da União para o agrado dos barões do café e pela nova expressão de um país mais moderno. Uma migração forçada que resultou ainda no ódio promovido pelos contrários da miscigenação oriunda do Nordeste que fora provocada no contato com tantas pessoas e culturas. O eterno Lua imortalizou essa triste situação em suas canções que já alertavam para a falta de vontade e o abandono institucional em relação aos flagelados.  
      Mesmo jogando bilhões de reais agora na estiagem com frentes emergenciais, a União e seus entes federativos pecam, pois sabem que o sertão vem também sofrendo com o desmatamento, as queimadas e as frequentes ameaças contra os seres nativos de nossa mata branca. Essas ações colaboram muito para a pouca circulação de água. Basta ver que há 30 anos as chuvas eram torrenciais e até jipes atolavam nas nossas caatingas aqui na Bahia. Hoje, o que mais se vê é uma imagem de muita poeira e desolação, pois ninguém deve beber água que até o gado não gosta. Isso é uma desumanidade. Uma vida em plenitude e dignidade, mesmo na caatinga, é a mais desafiante prioridade que qualquer governo sério e popular pode, de fato, ser encorajado a promover. O sertanejo não está pedindo mais do que seus direitos tão negados historicamente e que só no papel estão descritos. Um sertão de tantos cabras machos e mulheres de fibra ainda sucumbe com um fenômeno natural que ajuda na fortuna de tão poucos em detrimento da miséria absoluta de tantas irmãs e irmãos sertanejos.

sexta-feira, 4 de maio de 2012

CAMPOS DE CONCENTRAÇÃO NO CEARÁ: MAIS CRUÉIS QUE A SECA.



    Construídos no Ceará para manter os flagelados longe da capital, os campos de concentração prometiam trabalho, comida e atendimento médico. Ali, os sertanejos encontraram fome, sede, doenças e morte Entre 1932 e 1933, mais de 16 mil pessoas foram confinadas nos casarões do canteiro de obras da barragem do açude Patu – cuja construção começou em 1919 Por: Cida de Oliveira* A fé e a emoção unem os mais de 6.000 romeiros, quase todos vestidos de branco. Partem da igreja matriz do município de Senador Pompeu e percorrem mais de três quilômetros de estrada de terra até a capela do Cemitério da Barragem. Acendem velas e rezam pela alma dos enterrados ali. Acreditam que sejam intercessores de graças alcançadas. A procissão ocorre há 28 anos e mantém viva a memória de uma das páginas mais cruéis da história brasileira: a morte¬ de milhares de flagelados da seca de 1932 em campos de concentração¬ construídos¬ no estado pelo governo cearense¬. O governador Roberto Carneiro de Mendonça, interventor nomeado por Getúlio Vargas, atendia aos interesses da elite política e coronelista da ocasião. E Vargas precisava de apoio ao processo que levaria ao Estado Novo, posto em andamento a partir do golpe¬ de 1930. A 270 quilômetros de Fortaleza, Senador Pompeu abrigou um desses campos. Entre 1932 e 1933, mais de 16 mil pessoas foram confinadas nos casarões do canteiro de obras da barragem do açude Patu – cuja construção começou em 1919, paralisada em 1923, foi retomada em 1984 e, finalmente concluída em 1997. O tombamento dos casarões em ruínas, bem como da própria procissão, é uma luta antiga. “Preservá-los é perpetuar a lembrança dos mais de mil enterrados aqui e de todas as vítimas de outros campos, da seca, da fome, de doenças e do descaso do governo”, diz o advogado e escritor Valdecy Alves, um dos articuladores do Fórum Popular do Patrimônio Cultural e Ambiental de Senador Pompeu. A professora Kênia Sousa Rios, do Departamento de História da Universidade Federal do Ceará (UFC), conta que a ideia desses campos surgiu bem antes de 1932. Um deles foi construído em Fortaleza em 1915, ano marcado por longa estiagem. Mencionado no romance O Quinze, de Rachel de Queiroz, o espaço já tinha o objetivo de poupar as elites da capital cearense do incômodo convívio com retirantes sem trabalho, famintos e doentes, que para lá iam em busca de meios de sobrevivência sempre que a estiagem se prolongava. Segundo a professora, o sanitarista Rodolfo Teófilo (1853-1932), grande cronista da seca, relatou que em 1877 cerca de 110 mil sertanejos deixaram a própria casa com a esperança de vida em Fortaleza. Pelo menos 400, porém, eram encontrados mortos todo dia nas ruas da cidade. Para proteger a elite da capital dos “dissabores” dessa experiência migratória, o governo cearense desenvolveu o primeiro projeto de campos de concentração em 1915. O governador era Benjamin Liberato Barroso e seu vice, o padre Cícero Romão Batista, mas as oligarquias políticas cearenses eram lideradas pelo senador José Gomes Pinheiro Machado. Não faltavam inspiração e apoio para o método higienista das elites, uma vez que era forte a presença de ligas religiosas e até mesmo operárias de inspiração conservadora. Isca Com a seca de 1932, aprimorou-se o projeto de 1915. Foram construídos sete campos. Em Fortaleza havia dois, para confinar retirantes que lá já estavam. Ambos chegaram a ter 1.800 presos. Os de Crato e de Senador Pompeu receberam mais de 16 mil cada um; Quixeramobim, 4.500; Cariús, 28 mil; e Ipu, cerca de 6.500. “Os sertanejos eram atraídos por promessas de trabalho, alojamento, alimentação e serviço de saúde”, afirma Kênia Rios. Mas a multidão era concentrada em espaços precários. Tinha a cabeça raspada, usava roupas feitas com sacos de farinha e trabalhava praticamente em troca de comida. Os homens lidavam principalmente com marcenaria e construção de tijolos, as mulheres na fabricação de sabão e as crianças, que não tinham escola, podiam trabalhar e aprender artes e ofícios. Faltavam comida, água e remédios. Soldados armados detinham aqueles que tentavam fugir. Os campos mantinham locais para punir e encarcerar os rebeldes. “Atestados de óbito mostram que no campo de Ipu a fome e doenças como cólera chegavam a matar oito pessoas por dia”, destaca a historiadora. Registros oficiais contabilizam mais de 60 mil cearenses mortos nesses campos. Estudiosos creem que morriam mais pessoas em função deles que da seca. “O flagelo era maior lá dentro, com tamanha concentração de gente doente. Por maior que fosse a seca, em liberdade o sertanejo poderia caçar ou se alimentar de frutos silvestres em muitas regiões, como no Cariri (região do Ceará)”, ressalta¬ Valdecy Alves. O advogado Otoniel Ajala Dourado, da ONG SOS Direitos Humanos, afirma que os flagelados eram aprisionados por ser pobres, forçados a trabalhar para prefeituras, sem remuneração, e torturados por se rebelar. Desde 2009 a entidade move uma ação civil pública contra a União e o estado do Ceará por danos morais às vítimas do crime, imprescritível, de lesa-humanidade e genocídio. A indenização pedida é de R$ 500 mil para sobreviventes e familiares dos mortos. No mesmo ano, o juiz substituto da 6ª Vara da Justiça Federal no Ceará extinguiu a ação sem julgar seu mérito. Nova ação foi protocolada e está para ser julgada. A denúncia foi apresentada também à Comissão Internacional dos Direitos Humanos, em Nova York. Em 1933, quando as chuvas voltaram a cair, os campos foram desativados e os sobreviventes deveriam ser encaminhados de volta aos locais de origem. Nem todos, porém, retornaram. Em Fortaleza, a maioria ficou e deu início a uma das maiores favelas, a Moura Brasil, em Pirambu. “A violência desses campos reflete os primeiros anos da República, a crueldade com os pobres e com os negros”, diz Kênia Rios, autora do livro Campos de Concentração no Ceará – Isolamento e Poder na Seca de 1932, que inspirou documentários e peças teatrais. Para a pesquisadora, o episódio não findou em 1933. Ainda há projetos políticos que levam às praticas de repressão, humilhação e segregação. “Exemplos são os conjuntos habitacionais construídos em cidades-dormitório para afastar os pobres do usufruto dos bens culturais e de lazer oferecidos pelas cidades. Desestimulados pelo cansaço da semana de trabalho, pela distância e pelo transporte ruim, os mais humildes acabam deixando para os ricos o que as cidades oferecem de melhor.” Massacre Quatro anos depois do fim de seu campo de concentração, Crato, no interior do estado, voltou a ser palco de violência contra os direitos humanos. Segundo historiadores, as casas localizadas no Sítio Caldeirão da Santa Cruz do Deserto foram destruídas por forças do Exército e da polícia do estado. A comunidade não resistiu, como em Canudos. Os militares metralharam de aviões o pouco que sobrou e, em terra, com fuzis, revólveres, pistolas, facas e facões, liquidaram os sobreviventes. Cerca de mil moradores morreram e foram enterrados em vala comum. Alguns meses depois, foram encontrados 16 crânios de crianças numa área da Chapada do Araripe. A SOS Direitos Humanos move ação civil pública contra a União e o estado do Ceará. A ação cobra do poder público: a entrega dos documentos de identidade dos mortos, os documentos secretos da ação militar, a localização da vala comum, a lista de todos que participaram da ação criminosa, exames de DNA dos restos mortais para identificação e enterro digno e indenizações a sobreviventes e seus descendentes. A ONG defende ainda a inclusão do episódio em livros de História de todo o país. O sítio Caldeirão da Santa Cruz do Deserto, chefiado pelo beato negro José Lourenço, representou para as elites cearenses um “antro de fanatismo e comunismo primitivo”. Já para seus ex-moradores¬, era um reduto de “bondade cristã”. O Caldeirão tinha no trabalho coletivo e na religiosidade pilares da organização social. O fruto do trabalho era dividido conforme a necessidade de cada família, constituindo-se assim numa economia alternativa. Mais que “fanáticos desprovidos de qualquer organização racional”, seus habitantes promoveram uma política de convívio com a natureza, desfrutavam de água e alimentos com fartura. A autonomia da comunidade era um modelo ameaçador para as relações de exploração vigentes. Lembranças do Holocausto Mãos e rosto enrugados, olhar profundo, voz miúda, corpo castigado. Aos 84 anos, uma das últimas sobreviventes do campo de concentração de Senador Pompeu, Luiza Pereira, dona Lô, ainda recorda passagens angustiantes do cativeiro erguido no sertão do Ceará, comparado aos campos nazistas. Única herdeira viva dos oito filhos do casal de agricultores José Pereira e Josefa Bezerra, todos de Tauá, dona Lô continua solteira, morando em uma casa modesta próxima ao centro dessa cidade do sul do estado, outrora próspera devido à infraestrutura ferroviária, no corredor de escoamento do “ouro branco”, como eram conhecidas as plumas de algodão colhidas na região. A passageira do “curral do Governo”, como também eram conhecidas as áreas de agrupamento de retirantes espalhadas pelo Ceará naquele ano de 1932, ainda fala com lucidez e firmeza sobre a época. Ao registrar o sofrimento dos pais e da irmã, nascida e morta no campo onde mais tarde se ergueu a barragem do açude Patu, revela o trauma que a fez abdicar de se casar e ter filhos. “Tenho muita coisa pra dizer não. Minha mãe não deixava nós desgrudar dos pé dela. Era muita gente. Ela tinha medo de alguém carregar eu e meu irmão. Do resto todo mundo já sabe. Perdi a conta de quantas vez já repeti tudo isso. O sofrimento foi medonho… Quando chegamos neste lugar, após caminhada de 16 léguas, deitamos ali mesmo, no chão. Exaustos, sem ter o que comer, minha mãe ferveu água para passar a fome. Era apenas o começo dessa miséria que nunca esqueci… Desesperado, meu pai resolveu carregar a gente de Tauá para cá (Senador Pompeu) à procura do que comer e beber. Mas se estava ruim ficou pior.” Carmélia Gomes Pinheiro, de 87 anos, foi criada em Senador Pompeu, na Vila da Comissão, onde ainda mora. Seu pai, Antônio Gomes da Silva, foi vigia noturno do campo. Ela tinha 8 anos quando começou a ver famílias chegando de todos os cantos do sertão. Pouco saía. Os pais ficavam preocupados. Das colinas do outro lado da vila sabia apenas de imaginar e de ouvir as descrições da irmã, 12 anos mais velha, que às vezes doava alimentos aos flagelados. “A maioria era desviada. Medicamentos, chegavam poucos para atender a tantos doentes. Roupas não eram enviadas. Quando as vestimentas já estavam aos trapos, os corpos eram cobertos com sacos de mantimentos. Muitos sacos eram costurados e transformados em camisões. E era assim que a maioria era sepultada. Com receio de arrancarem o fígado dos mortos quando eram jogados nas valetas do cemitério, muitas famílias enterravam seus mortos no mato, escondido”, conta. Carmélia lembra um momento marcante naquele ano da concentração, quando caminhando pelo campo viu corpos ainda não enterrados. Ficou paralisada. “Vi uma lagartixa saindo de dentro da boca de um dos mortos.” (*Cida de Oliveira – Especial para a Rede Brasil Atual, reproduzido por Fato Expresso) http://www.fatoexpresso.com.br/