sexta-feira, 29 de junho de 2012

TRADIÇÃO X HISTÓRIA? UM ANTAGONISMO PRESENTE ATÉ NAS NOSSAS FESTAS.

                     
            Quando nos debatemos sobre nossa história vemos que muitas ações diárias são o reflexo da tradição e da memória passadas de geração para geração pelo costume e pela obrigatoriedade. Sendo o estudo da história uma interpretação a partir do pedestal onde estejamos não é certeza que os fatos só tenham um lado como seu dono                                                  
e propulsor.
     1-Conselheirista preso por soldados do Exército: alguma diferença?                  
                                          
     Quando os nossos estudantes analisam o Cangaço e  Canudos lá pelo 9º ano do Ensino Fundamental, logo indagam que tais movimentos foram feitos sem respaldo social, pois foram repugnados e exterminados pelo poder instalado nesses tempos anteriores. Entendem que o Cangaço foi um movimento sem elos e que se tratava somente de arruaceiros e bandidos da pior espécie (ESSE TERRÍVEL ASPECTO EXISTE, MAS OUTROS TAMBÉM PRECISAM SER ESTUDADOS). Entendem também que Canudos foi um movimento programado por um homem metido a profeta do sertão que dizia que o sertão iria virar mar. Para quem estuda, pesquisa, lê e vive motivado pela história, isso pode PROVOCAR um mal-estar muito grande, visto que história sempre foi feita para ser debatida em busca de uma melhor interpretação.
 
2-Sobreviventes do massacre de Canudos. 
    
   Espanta ver também que os mesmos jovens que negam uma história sua como o Cangaço e Canudos, nesses tempos juninos se trajam de cangaceiros (as) e de sertanejos (as) que ao primeiro lance nos mostram seu brilho nos olhos e sua satisfação em serem nordestinos,sertanejos e caatingueiros. Seria então uma jogada de marketing de quem tenta apenas querer se mostrar como nordestino, mas que nega por várias razões suas raízes tão profundas porque aprenderam desde cedo que tais movimentos foram negativos por natureza. Negar sua origem e seu passado é a primeira forma de se tornar refém de seu presente e das ideias colonizadoras tão presentes em nossa região.
     Como podemos nos trajar daquilo que rejeitamos? Como podemos comemorar algo que nós não somos tão afeiçoados? Existiria neste caso, uma inconsciência coletiva?
   
  3-Foto que possivelmente fora tirada em Jeremoabo(BA).
  Acredito que a resposta a essas questões possa estar na forma como foram passados esses movimentos para o nosso inconsciente, ou seja, o senso comum nega-os, mas se apropria dos mesmos para torná-los enfeites nesses tempos juninos. A sorte foi que ícones do Nordeste do Brasil como Gonzagão, Marinês, Jackson do Pandeiro, Dominguinhos, Alcymar Monteiro, Patativa do Assaré,entre tantos, mantiveram esses aspectos como algo vivo em seu caminhar pelo país. A história dá espaço para todos(as), mas não convive pacificamente com a falta de memória, mesmo sabendo que muitos são vítimas de uma perda de memória tão acentuada.
    E aí é que entra o positivo esforço para segurar esse testamento cultural que só foi efetivamente garantido por causa daqueles esquecidos no sertão (também esquecido) que continuam queimando sua fogueirinha, louvando os seus santos juninos e gostando sempre das coisas que o sertão e seus “donos” impõem, mas que, mesmo assim, os sertanejos continuam a resistir e a reinventar suas vidas caatingadas com todas as suas forças e sua incansável fé em Deus.
 
  
   4-Virgolino e seus familiares.

Autor:Thomaz Araújo

domingo, 24 de junho de 2012

PASMEM, POÇO REDONDO EXISTE!

PASMEM, POÇO REDONDO EXISTE!


Rangel Alves da Costa*

Os mais velhos diziam e todos os relatos históricos confirmam que nas longínquas brenhas do sertão sergipano, no mais escaldante recanto do semi-árido de meu Deus, por entre serras, na vastidão dos mandacarus e xique-xiques, bem nas ribanceiras do Velho Chico, um dia surgiu um andante, depois mais um e mais um, que fixando-se no lugar construíram as primeiras moradias daquele ermo distante, que foi fazenda, vilarejo, povoado e mais tarde cidade. A esse lugar deram o nome de Poço Redondo, como referência a uma grande cacimba existente no leito do riacho Jacaré – que circunda a cidade -, onde os vaqueiros iam saciar a sede dos animais. “Onde vai cumpade?”, e o outro respondia: “Vou lá no poço redondo dar água ao gado”. E assim ficou: Poço Redondo.
Através da Lei estadual nº 525-A, de 23 de novembro de 1953, Poço Redondo foi desmembrado do município de Porto da Folha e passou à categoria de cidade, sendo termo judiciário da comarca de Gararu. A efetiva instalação do município ocorreu em 6 de fevereiro de 1956, com a posse do prefeito eleito no pleito de 3 de outubro de 1954, Artur Moreira de Sá, e cinco membros da Câmara de Vereadores. Assim, depois de muitas lutas de suas lideranças políticas, a localidade passou a ser regida pela Lei Orgânica dos Municípios e pôde reivindicar dos poderes federais e estaduais as melhorias necessárias para sua gente profundamente sofrida.
Com o passar dos anos e a evolução da municipalidade brasileira, mesmo assim Poço Redondo continuou com “aquele ar de antigamente”, mínimo desenvolvimento estrutural e o contínuo sofrimento do seu povo com a seca impiedosa. Não obstante tais aspectos, o município possui características que não podem deixar de ser observadas.
Geograficamente, é o maior município do estado, com 1.212 km²; no seu chão está localizado o ponto mais elevado de Sergipe, que á Serra Negra (Serra da Guia), com 742 m; de sua terra brota a nascente do rio Sergipe, na Serra Negra; é o 11º município sergipano em números populacionais, com 29.879 hab. e o 17º em termos eleitorais, com 16.390 eleitores; conta com o maior número de assentados do MST em Sergipe; foi cenário, em 1975 e 1976, respectivamente, dos cinedocumentários para o Globo Repórter “O Último Dia de Lampião” (de Maurice Capovilla) e “A Mulher no Cangaço” (de Hermano Penna) e do premiado filme “Sargento Getúlio” (em 1985, de Hermano Penna); foi o município nordestino que mais contribuiu com cangaceiros para o bando de Lampião, num total de 23 poço-redondenses, entre homens e mulheres; e foi em suas margens ribeirinhas, na Gruta do Angico, que Lampião e Maria Bonita, juntamente com mais nove cangaceiros, foram massacrados pela volante alagoana em 28 de julho de 1938, pondo fim ao ciclo do cangaço organizado.
Como observado, por mais que autoridades governamentais, estudiosos e pesquisadores, magistrados, jornalistas e todos “aqueles estranhos ao mundo sertanejo” tentem ou queiram menosprezar a terra e o seu povo, verdade é que Poço Redondo possui história, geografia, economia, atratividade turística e, o que é mais importante, dignidade na humildade, dignidade na luta e dignidade no caráter de sua gente.
Alertar sobre isso é uma necessidade imperiosa, vez que, como dito acima, o município quase sempre é esquecido pelas autoridades constituídas e por aqueles que formam a opinião pública. Somente nas tragédias e nas calamidades é que se torna alvo das políticas assistencialistas (no pior sentido da expressão) governamentais ou ganha volumoso e sensacionalista espaço na mídia. Quem não se lembra, por exemplo, do ônibus que incendiou e explodiu na pista que leva ao povoado de Santa Rosa do Ermírio, matando mais de vinte pessoas; da ponte sendo destruída pelas águas do riacho Jacaré, causando mortes ao longo do seu leito; da garotinha da Barra da Onça, bonita e de aspecto triste, da fotografia de Sebastião Salgado; da mãe de família chorando porque não tinha água nem alimentos para dar aos filhos; da farsa montada para mostrar pessoas comendo palma numa dessas estiagens passadas; enfim, da necessidade de mostrar que quanto pior melhor?
Outros fatos podem ser acrescentados para demonstrar o menosprezo e a falta de respeito pelo município e sua gente, fatos que de fininho saem do contexto local e alcançam vertentes muito mais amplas. Basta citar mais uns três ou quatro exemplos: frequentemente os repórteres das televisões afirmam que a Gruta do Angico está localizada no município de Canindé do São Francisco; Poço Redondo é o único município do estado que não possui uma rua sequer com seu nome em Aracaju, e isto é verdade que já foi comprovada pelos Correios; a localidade já sediou três agências bancárias (Banco do Brasil, do Nordeste e do Estado de Sergipe) e atualmente só conta com uma agência do BANESE, e mesmo assim com a negativa perspectiva de fechar suas portas; e, por último, o fato mais recente que se propagou, quando a presidência do Tribunal de Justiça do Estado queria por que queria extinguir a comarca do município (projeto neste sentido chegou a ser enviado ao legislativo estadual) sob a alegação de que o lugar é muito pobre, distante da capital, as carências são visíveis em todos os sentidos e os digníssimos magistrados em início de carreira simplesmente não querem trabalhar lá. Em síntese, o TJSE vê Poço Redondo como um estorvo, como uma ovelha negra que não necessita da tutela judiciária estatal. Discriminação, preconceito, aversão ao sertanejo.
Mas tudo bem, os sertanejos de Poço Redondo são suficientemente fortes para perdoar tudo isso. Eles só querem o que lhes cabe de direito; só almejam possuir o suficiente para viver com dignidade; só querem que os outros não queiram eliminar a felicidade construída no dia-a-dia, molhados de lágrimas, queimados de sol. Ademais, colhendo das palavras do Eclesiastes, os sertanejos sabem que para tudo há um tempo, para cada coisa há um momento debaixo dos céus: há tempo para plantar e tempo para colher; tempo para chorar e tempo para rir; tempo para viver com orgulho de ser tão sertão.
Poço onde bebi: