quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

ANTONIO CONSELHEIRO EM PARIPIRANGA


     Paripiranga também foi palco das andanças do beato Antonio Conselheiro. Veja a seguir a narrativa do ilustre e saudoso filho de Paripiranga, José de Carvalho Déda (Zeca Déda) sobre a passagem do beato cearense em Simão Dias e, logo em seguida, dirigindo-se a Patrocínio do Coité (hoje Paripiranga).

CAPÍTULO XII

Simão Dias e a Guerra de Canudos.

O Conselheiro passou despercebido.


     Quase que passou despercebida a presença de Antonio Conselheiro por Simão Dias.
   Foi brevíssima a estada, aqui, do estranho penitente que arrastaria o Exército Nacional a repetidos desastres nas caatingas de Canudos. O seu trajeto, pelas ruas da cidade, despertaria apenas, a curiosidade da meninada travessa, atraída pela grotesca indumentária e pelo aspecto de profeta do esquisito personagem.
   Estatura regular, tez morena queimada do sol, barbas longas e mal cuidadas, cabelos compridos e desgrenhados, caindo-lhe sobre os ombros, trajando folgado camisolão de zuarte azul, uma capanga a tiracolo contendo alguns livros, inclusive um exemplar de “Missão Abreviada”, um comprido bordão com o qual se defendia, resignadamente, dos cães vagabundos que o ameaçavam com encardidos pés,era Antonio Conselheiro,em carne e osso,andando pelas ruas de Simão Dias.
   O monge errante dirigiu-se à casa do Vigário, para comunicar-lhe a sua vontade de pregar uma rápida “missão”.
  O Pároco fitou o adventício da cabeça aos pés, fez-lhe algumas perguntas e, com energia, intimou-o a retirar-se de sua Paróquia.
  Debaixo de uma forte pateada da meninada irreverente, o penitente retirou-se cabisbaixo e resmungante, em direção ao oeste.
   Na passagem do Caiçá lavou as alpercatas para limpá-las da poeira da Cidade que houvera repelido, lançando sobre ela sua excomunhão de profeta agastado. Seguiu para a vizinha vila do Coité.
  Em Coité foi expulso pelo povo, sob o comando do próprio Vigário daquela Freguesia, retirando-se depois de bater a poeira de suas alpercatas e lançar terrível excomunhão à vila, indo pernoitar no Engenho “lagoa Salgada”, propriedade de João de Fraga Pimentel, onde pregou um sermão e leu trechos da “Missão Abreviada”.
   Dizem que ao sair das caatingas do Coité, já alguns adeptos fanáticos o acompanhavam,levando os seus toscos oratórios.
  Algum tempo depois, começaram a chegar as notícias das primeiras façanhas do estranho monge que passara quase despercebido em Simão Dias.

Fonte: Déda, José de Carvalho - 1898-1968 -História - Simão Dias, Fragmentos de sua história. Aracaju- Gráfica Editora J. Andrade, 2008-2ª edição.