domingo, 10 de março de 2013

Paripiranga na história 9 - Dadá esteve por aqui.

Dadá(à direita) era uma excelente estilista do Cangaço.
 fonte: http://www.bcc.org.br/fotos/galeria/018165


     Em mais uma entrevista exclusiva, o escritor e pesquisador João de Sousa Lima, encontrou o ex-volante e hoje sargento Gérson Pionório Freire, aposentado da PM-BA, morador de Paulo Afonso e com 97 anos bem vividos e, tendo seu nome, marcado nas páginas da história das refregas do Estado contra o Cangaço movido a todo vapor por Virgolino, vulgo Lampião, principalmente nas décadas de 20 e 30 do século XX na Bahia e em Sergipe.
 Sendo este senhor nonagenário, volante integrante dos mais temidos comandantes que farejavam a todo momento os rastros dos facínoras e,sendo que,os mesmos militares também fizeram pousada em Paripiranga : José Osório de Farias(Zé Rufino) e Odilon Nogueira  Souza  (Odilon Flor). Dois pernambucanos, contratados a serviço do Governo da Bahia, no combate ao Cangaço, sendo os mesmos temidos pelo próprio Virgolino.

   Nesse ínterim, veio à luz mais uma entre tantas informações sobre a presença de volantes e cangaceiros em Paripiranga, além de que, dos 3 últimos integrantes do grupo de Virgolino entre nós, um deles é natural de Paripiranga(José Alves de matos-Vinte e Cinco), confirmou-se a estadia no quartel local da musa do Cangaço, Sérgia Ribeiro da Silva (Dadá), esposa de Cristino Gomes da Silva Cleto (Corisco), após este ser morto pela volante de Zé Rufino em maio de 1940. Dadá morou por alguns anos na mesma cidade do comandante Zé Rufino (seria coincidência?), após ser levada de Paripiranga para Jeremoabo. Se recebesse indulto ainda em Paripiranga, quem sabe, poderia ter passado algum tempo em liberdade em terras do antigo COITÉ e sua biografia registraria este fato após a vida no Cangaço.   

  Por causa da necessidade de se retirarem os cangaceiros e as cangaceiras das áreas de sua atuação na Bahia e Sergipe, alguns dos capturados ou vindos das entregas feitas por essas bandas, passavam por Paripiranga, no intuito de serem conduzidos para a estação ferroviária de Salgado, em Sergipe, para seguirem viagem em direção a Salvador via trem da Leste Brasileira.
  O texto de João de Sousa Lima mostra fatos interessantes sobre as refregas entre volantes e cangaceiros que resultaram numa das páginas mais doloridas do Brasil e do Nordeste. Paripiranga também fez parte desse momento.


No dia 28 de julho completará 75 anos da morte de Lampião, as pessoas envolvidas diretamente na história do cangaço e que ainda se encontram vivas estão beirando os 100 anos de idade. É muito difícil encontrar remanescentes daquela época em se tratando de cangaceiros ou os que lutaram em nome da ordem pública como soldados efetivos ou contratados. Encontramos só três cangaceiros vivos e soldados da volante em torno de doze. Coiteiros e pessoas que conheceram alguns cangaceiros ainda existem uma grande quantidade.                                   
Em Paulo Afonso vive Gérson Pionório Freire, filho de João Miguel Freire e Isabel Pionório Freire. O pai de Gérson nasceu nas barrancas do Riacho do Navio e sua mãe em Chorrochó, Bahia. Gérson nasceu no dia 20 de janeiro de 1916, em Curaçá, Bahia. Ele é um dos poucos militares que matou cangaceiros.
O Primeiro contato de Gérson com os cangaceiros foi quando Lampião passou com seu grupo na fazenda Guarani, em Curaçá. A fazenda pertencia ao pai de Gérson, o senhor João Miguel. No momento estavam o pai, a mãe, Gérson, Abdias, Ulisses e Elza. Os cangaceiros solicitaram dinheiro, ouro, sal e animais. O ouro estava em um cupinzeiro que existia em uma das paredes e os cangaceiros não encontraram. Pegaram cinco contos de réis que estavam no bolso de João Miguel, um cavalo, um burro e sete jegues.
 Lampião olhou pra Gérson e disse:
- Menino venha cá, pise aqui esse sal!
 Gérson pisou o sal e entregou a Lampião. O cangaceiro começou a colocar o sal com uma colherinha de chá em um pequeno cumbuco de coco que o orifício de entrada era apertado e o sal caia fora do recipiente em sua maior parte. Gérson pegou um livro, arrancou uma página, fez um funil e colocou o sal no cumbuco. Lampião observando a inteligência do rapaz falou:
- É morrendo e aprendendo!
 Desde esse episódio do primeiro encontro de Lampião, alguns anos se passaram e Gérson resolveu ser policial, sendo apadrinhado do capitão Menezes. No dia 04 de maio de 1936, na cidade de Jeremoabo, Gérson e seus irmãos Abdias e Ulisses entraram na volante de Antônio Inácio como contratado. Gérson passou a ser efetivo da polícia no dia 10 de outubro de 1940.
 Gérson  destacou como soldado nas cidades de Jeremoabo, Canindé, Canudos (foi delegado), Pilão Arcado, Sento Sé, Remanso, Sobradinho, Casa Nova, Senhor do Bonfim, Juazeiro, Napele, Tucano, Calda de Cipó, Urucé, Itabuna, Canavieiras, Camacã, Jacareci (foi delegado), Euclides da Cunha (foi comandante), e Cocorobó (foi delegado). Ele passou pelas volantes de Pedro Aprígio, Aníbal Vicente, Zé Rufino e Odilon Flor.
 Quando serviu com Odilon Flor, participou do combate onde foram mortos os cangaceiros Pé-de-Peba, Chofreu e Mariquinha. O combate aconteceu no Riacho do Negro, em Sergipe.
 A volante de Odilon Flor seguiu os rastros dos cangaceiros e próximo a cidade de Coité (hoje Paripiranga) chegaram na casa de um coiteiro. Os policiais cercaram a casa, no curral tinha uma janela e avistaram umas perneiras, roupas e garrafas de bebidas. Os policiais entraram na residência e perguntaram a mulher sobre os cangaceiros. O marido da mulher foi chegando e os soldados deram voz de prisão. Odilon Flor ordenou:
- Gérson vá mais Luiz pra trás da roça e mate esse coiteiro!
O coiteiro pra não morrer prometeu entregar os cangaceiros. A volante seguiu com o coiteiro nos rastros dos cangaceiros indo encontrá-los às onze horas da noite. O combate noturno travado entre 15 policiais e 08 cangaceiros foi ferrenho. Odilon Flor foi baleado nas nádegas, os cangaceiros tiveram uma baixa de 03 componentes do grupo. Os policiais cortaram as cabeças e ainda à noite as colocaram em um carro de boi e levaram até Paripiranga. Na cidade, a população pôde ver as cabeças de Pé-de-Peba, Chofreu e Mariquinha. Gérson passou a receber o soldo de sargento depois da morte dos cangaceiros.
Quando Zé Rufino matou Corisco e baleou Dadá, Gérson e seu irmão Abdias Pionório foram buscar Dadá em Paripiranga e a trouxeram pra Jeremoabo. Dormiram no Sítio do Quinto, revezando os dois irmãos a guarda da cangaceira baleada.
 A convivência de Gérson e Zé Rufino foi marcada por discussões. Zé Rufino descontava do soldo dos soldados pra pagar o que eles consumiam dos sertanejos e Zé Rufino ficava com o dinheiro.
O volante participou também da prisão do matador Peixoto, assassino que aterrorizou várias cidades baianas. O bandido Peixoto matou um rapaz em Santo Antônio da Glória e foi preso depois de uma longa perseguição. Peixoto fugiu da cadeia de Glória e foi se esconder em Sergipe, na cidade de Simão Dias, sob a proteção do fazendeiro Dorinha.
 Gérson, João Ribeiro, Gervásio Grande e mais alguns soldados foram a Simão Dias e prenderam Peixoto e o levaram para Paripiranga. De lá foram levar o preso pra Salvador. No trajeto, quando passavam em Boquim, um juiz de Direito se aproximou dos policiais e do detento e pediu aos soldados que soltassem o preso que ele era um coitadinho. João Ribeiro pegou um mamão e jogou no juiz. O mamão espatifou-se nos peitos do juiz sujando sua roupa de linho branco. O preso foi entregue em Salvador.
Gérson trabalhou um bom período para a família do político Nilo Coelho, vive há muito tempo em Paulo Afonso e é sargento reformado da polícia baiana. Lúcido, conta suas histórias e fala com saudades do tempo em que andava nas caatingas em perseguição aos cangaceiros. Guarda junto aos documentos algumas orações e um crucifixo que ele tem desde que entrou na polícia e acredita que só não morreu nos tiroteios por força dessas orações.






João de Sousa Lima
Historiador e Escritor

Membro da ALPA- Academia de Letras de Paulo Afonso
Sócio do GECC - Grupo de estudos do cangaço do Ceará

Paulo Afonso, Bahia, 07 de março de 2013.

http:www.joaodesousalima.com