quinta-feira, 12 de novembro de 2015

Ecos de Canudos

ECOS DE CANUDOS: MORRO DA FAVELA

        EM  FINS DE 1897, O BRASIL COMETERA UM DOS SEUS MAIORES EQUÍVOCOS: A DESTRUIÇÃO DO ARRAIAL DE BELO MONTE, OU POPULARMENTE, CANUDOS.   O ESCRITOR EUCLIDES DA CUNHA DIZIA EM SEUS RELATOS DE OS SERTÕES QUE ERAM 5  MIL SOLDADOS RUGINDO RAIVOSAMENTE SOBRE O QUE SOBRARA  DAS GENTES CONSELHEIRISTAS: IDOSOS,MULHERES,CRIANÇAS E ALGUNS HOMENS FEITOS. MESMO AOS QUE SE ENTREGARAM ANTES DO FIM DA GUERRA, A DEGOLA ERA UMA CONSTANTE. TALVEZ POR ISSO, MUITOS SERTANEJOS COMBATENTES PREFERISSEM UMA MORTE MAIS DIGNA E CONTINUAVAM NAS TRINCHEIRAS DAS BATALHAS ÉPICAS. ASSIM, GUERREIROS DE TODO O BRASIL FORAM AO SERTÃO DA BAHIA (NORDESTE DA BAHIA) PARA COMBATER SEUS IRMÃOS SERTANEJOS. O ESTADO BRASILEIRO PROMETERA-LHES GRANDES RECOMPENSAS PELO ESFACELAMENTO TOTAL DE ANTONIO CONSELHEIRO E SEUS SEGUIDORES. E ASSIM FOI FEITO. O ARRAIAL FOI LITERALMENTE COLOCADO ABAIXO E SUA GENTE FEITA DE REFÉM POR QUEM DEVIA-LHES DAR ASSISTÊNCIA AMPLA E IRRESTRITA, POIS TAMBÉM  ERAM OS SERTANEJOS, FILHOS DESTA PÁTRIA, SOLO MÃE GENTIL.  O CEARENSE GUSTAVO BARROSO, ASSIM COMENTA, SOBRE O SERTÃO:
TANTO QUANTO COMUNICAÇÕES E ESCOLAS, AO SERTÃO FALTA QUEM LHE CONGREGUE AS ENERGIAS, AS IMPULSIONE E ENCAMINHE EM SENTIDO ÚTIL. DOS GOVERNOS LOCAIS SEMPRE HOUVE MAIS INCLINAÇÃO PARA A POLÍTICA PESSOAL DO QUE PARA A ADMINISTRAÇÃO.” (BARROSO-FON FON-1936-P.36).


    TERMINADA A MISSÃO EM CANUDOS, MUITOS DOS COMBATENTES SE DIRIGIRAM AO RIO DE JANEIRO, ENTÃO CAPITAL FEDERAL, NO INTUITO DE REIVINDICAREM DO PRESIDENTE DA REPÚBLICA, OS TAIS BENEFÍCIOS PROMETIDOS DA CAMPANHA NA BAHIA. ACAMPARAM PRÓXIMOS AO MINISTÉRIO DA GUERRA E, DE LÁ, ESPERARAM ANSIOSOS PELOS VALORES E DESPOJOS DA GUERRA. COMO PRATICAMENTE O PROMETIDO EM QUASE NADA FOI CUMPRIDO, ESSES EX-COMBATENTES RESOLVERAM ESPERAR PELA PROMESSA, FUNDANDO UMA COMUNIDADE EM UM MORRO PRÓXIMO AO MINISTÉRIO ACIMA MENCIONADO. PARA LEMBRAREM-SE DO MORRO SERTANEJO ONDE HOUVE OS FEROZES COMBATES, RESOLVERAM ASSIM, BATIZÁ-LO DE MORRO DA FAVELA. MUITO EM BREVE, SERIA TROCADA A NOMENCLATURA PELO TOPÔNIMO MORRO DA PROVIDÊNCIA. PORÉM, O NOME ANTIGO JÁ TINHA PEGADO NO GOSTO POPULAR E TODA A COMUNIDADE AGORA SE CHAMAVA OSTENSIVAMENTE DE FAVELA. E AQUELES QUE NELA MORASSEM, SERIAM CONHECIDOS COMO FAVELADOS (PRINCIPALMENTE A PARTIR DA DÉCADA DE 1970). ESSES MORADORES SE DIZIAM MORADORES DA FAVELA, POIS É SABIDO QUE NO BRASIL OS NOMES MAIS POPULARES SÃO SEMPRE ENCURTADOS, SOFREM CORRUPTELA OU SÃO ABREVIADOS. SURGIRAM OS FAMOSOS BARRACOS FEITOS DE LATA OU ZINCO, RESTOS DE MADEIRA E DE DEMOLIÇÕES TRAZIDAS PELAS OBRAS NA CIDADE QUE PASSAVA POR MODIFICAÇÕES. BOA PARTE DESSES COMBATENTES ERA COMPOSTA DE TAMBÉM SERTANEJOS E DE EX- ESCRAVOS. LOGO, LOGO, NÃO SERIAM ELES BEM VISTOS E BENQUISTOS PELO GOVERNO E PELA SOCIEDADE, QUE, OUTRORA OS ACLAMARAM COMO HERÓIS E GUARDIÕES DA ORDEM E DO PROGRESSO ESTAMPADOS EM NOSSO SÍMBOLO AUGUSTO DA PAZ. NORDESTINOS E NEGROS SERIAM OS NOVOS(ou velhos) EXCLUIDOS DA RECÉM NASCIDA REPÚBLICA FEDERATIVA DO ESTADOS UNIDOS DO BRASIL, COM SEUS HOJE 126 ANOS.
    DA CANUDOS ARRASADA PELA MATADEIRA INGLESA (CANHÃO) QUE HOJE ESTÁ EM UMA PRAÇA DE MONTE SANTO, TROUXERAM AS MARCAS CICATRIZADAS, AS PROMESSAS E UMA IMAGEM DE  JESUS CRISTO CRUCIFICADO, ENCONTRADA NOS ESCOMBROS DE UMA DAS IGREJAS (PROVAVELMENTE ESTA IMAGEM NEM EXISTA HOJE, POIS FOI DANIFICADA E DESCARTADA). SENDO ESTA COLOCADA EM UM ORATÓRIO QUE FORA ERGUIDO ANTERIORMENTE NO ALTO DO MORRO DA FAVELA, COMO SÍMBOLO, QUEM SABE, DE QUE SUAS PROEZAS NA GUERRA DO SERTÃO, TORNARAM-LHES MUITO MAIS SEMELHANTES AOS CONSELHEIRISTAS DO QUE COMO SERVOS DO ESTADO QUE OS OBRIGARA A COMETER A CARNIFICINA DE MAIS DE 20 MIL SERES HUMANOS, EM FINS DO SÉCULO XIX. FATO É QUE, DURANTE TODO ESSE PERÍODO, AS FAVELAS DO RJ E DE SP CONSTITUEM-SE NAS NEOCANUDOS, INFELIZMENTE VISTAS PELO ESTADO COMO GRANDES PROBLEMAS A SEREM ESQUECIDOS E PALCOS DE INTERVENÇÕES POUCO PROVEITOSAS. ASSIM, O MOVIMENTO UTÓPICO DE CONSELHEIRO CONTINUA AINDA EM PÉ, MESMO SABENDO QUE SUA CANUDOS FORA DESTRUÍDA E SUA DERROTA ERA DADA COMO CERTA,  SUAS IDEIAS FORAM AO LONGO DO TEMPO, SENDO CONDUZIDAS, EM PARTE, POR QUEM DESEJA HOJE QUE A VIDA DEVA SER BEM MELHOR. A CANUDOS HISTÓRICA FORA DESTRUÍDA PARA FAZER ESQUECER QUE A PÁTRIA TINHA SUAS OBRIGAÇÕES PERANTE OS QUE MAIS CARECEM DE APOIO. MESMO ASSIM, SEUS ALGOZES O PROMOVERAM E IMORTALIZARAM-NO. APESAR DE TENTAREM CALAR A VOZ DE CONSELHEIRO, ELA ACABOU FICANDO MAIS FORTE. SE PERGUNTARMOS PARA AS PESSOAS HOJE QUEM ERA O PRESIDENTE DA REPÚBLICA OU OS PRINCIPAIS COMANDANTES E POLÍTICOS ENVOLVIDOS NO CONFLITO NAQUELA ÉPOCA DA GUERRA DE CANUDOS, SERÁ QUE A MAIORIA SABERIA RESPONDER DE PRONTIDÃO A ESTE QUESTIONAMENTO?
SABEMOS HOJE QUE O BELO MONTE DE CONSELHEIRO MORA EM TODAS AS COMUNIDADES HUMILDES E DESASSISTIDAS, QUE SE ORGANIZAM À SUA MANEIRA E INTERESSES, PARA TRILHAR CAMINHOS COMUNAIS, MESMO CONVIVENDO COM O ABANDONO FEITO POR PARTE DAS INTITUIÇÕES OFICIAIS E PELA PERCEPÇÃO INEQUÍVOCA NOS DIAS ATUAIS, DE QUE AINDA ESTAS COMUNIDADES ESTÃO CONFIGURADAS NO PAPEL SECUNDÁRIO DOS DESTINOS DO PAÍS.
      ASSIM, DESTRUIR A CANUDOS MAIOR NO SERTÃO DA BAHIA FEZ SURGIR OUTRAS CANUDOS AOS MILHARES, AOS PÉS DO CRISTO DA REDENÇÃO E AOS OLHOS DOS MENTORES DE TAMANHA E DESCOMUNAL SEGREGAÇÃO ÉTNICA E INDIFERENÇA SOCIOECONÔMICA. MESMO ASSIM, AINDA HÁ TEMPO NESTE SÉCULO XXI DE TER UMA TERRA ABUNDANTE COM LEITE E MEL, COMO PROFETIZAVA ANTONIO VICENTE MENDES MACIEL, O CONSELHEIRO DO BOM JESUS DO BELO MONTE.



   

terça-feira, 13 de janeiro de 2015

Conselheiro – Missão Abreviada

Conselheiro – Missão Abreviada





      Há pouco tempo tive acesso ao livro datado do século XIX(1ª edição em 1859, provavelmente) que o conselheiro Antonio tivera em suas mãos e que, através do mesmo, obtivera a capacidade sábia de pregar para um sertão tão faminto de religião presencial. Conselheiro sempre fora para muitos um fanático messiânico e outras afirmações aceitas pelo senso comum. Porém, quando nos defrontamos com o livro Missão Abreviada do padre português Manoel José Gonçalves Couto, vemos que, este livro, tão pouco conhecido pelos que se interessam pelo fato histórico do Belo Monte, pode ter sido um norte na vida de Conselheiro em relação à sua capacidade de atrair multidões em torno de um projeto de vida, calcado na espiritualidade e no legado do cristianismo, tão arraigados no sertão nosso de cada dia.
     Fato é que, lendo uma de suas quase mil páginas (isso mesmo, quase mil páginas), nos defrontamos com uma obra de alto brilho, mesmo que não seja tão afamada no meio literário, pois se tratava de um instrumento de evangelização e contenção do protestantismo da época, sendo também o livro português mais editado do século XIX, só perdendo para a Bíblia Sagrada. Orações e trechos bíblicos com um português ainda com umas palavras sem uso hoje, mas que fascinam pela lógica direta e reflexiva da vida cristã e do apego a Deus, Jesus e Maria Santíssima. Assim, pecado, luxúria, medos, inveja, fim dos tempos e deveres dos cristãos são transcritos de forma objetiva e mostram que a retórica daquela época tinha seus modos particulares e peculiares de falar sobre religião.
  Conselheiro tivera seu papel fundamental no fortalecimento do catolicismo sertanejo. Organizou obras em cemitérios, capelas e igrejas que hoje ainda são marcos de uma arquitetura sertaneja e peculiar de um povo. Um povo empobrecido e faminto de tudo não aceitaria trilhar um caminho sem esperanças concretas. Conselheiro tinha saberes que se acumularam ao longo de décadas de pregação pelo semiárido brasileiro e seu sustentáculo religioso era, senão, seu inseparável livro Missão Abreviada, além da Bíblia Sagrada e as Horas Marianas, que serviam como seus missais e roteiros de pregação. Este primeiro livro merecia ser lido pelo beato Antonio, pois conciliava a busca por Deus e a dignidade do ser humano em um lugar tão desumano como ainda é o Sertão.
    Em sua página primeira, o padre autor anuncia que a mesma obra esteja eleita para sacerdotes e para pessoas que se afeiçoam em pregações públicas, o que garantiria e afirmava que o Conselheiro tinha sim, esta autorização para pregar a palavra sagrada e seus mistérios mais desafiadores. Os pedidos do padre autor eram de que este livro fosse lido por pessoas alfabetizadas e que tivessem uma vida singular no meio da multidão. E isto o Conselheiro tinha de sobra, pois o seu carisma era de uma maneira tão forte e consistente que incentivava a modificação radical de um Sertão triste de norte a sul e de leste a oeste.
     Assim, o padre Manoel José Gonçalves Couto pede na folha de rosto de sua obra:
Missão abreviada - para despertar os descuidados, converter os pecadores e sustentar o fructo das missões. É destinado este livro para fazer oração, e instruções ao povo, particularmente ao povo d’aldeia. Obra utilíssima para os parochos, para os capellães, para qualquer sacerdote que deseja salvar almas, e finalmente para qualquer pessoa que faz oração pública.

     Antonio conselheiro estava apto a pregar suas orações e sentimentos a qualquer pessoa, pois obtivera através deste livro a capacidade de não apenas ler ou ensinar palavras e lições vãs. Pelo contrário, o fazia com respeito e sinceridade que são necessários ao homem que sai pelo mundo pregando o Evangelho. Obstinado que era, o Beato transforma-se em mensageiro bem-aventurado de uma palavra que faltava ao sertanejo, pois o este seria renegado a segundo plano nos afazeres de alguns sacerdotes. Configura-se assim que, ao contrário do se fazia naquela época, a palavra de Deus deveria ser celebrada por todos aqueles que a buscavam. Despertar os descuidados que estavam sob a égide de que a vida não mudaria para melhor. Porém, o Conselheiro conseguiu tirar o melhor que o livro poderia oferecer: a concretude de uma esperança.
    Talvez este livro não seja tão conhecido aqui no Brasil devido a sua ligação com o beato Conselheiro, pois se imagina que após os fogos de Canudos, algumas pessoas resolveram varrê-lo do mapa e das mentes brasileiras. A velha Canudos está submersa, a segunda Canudos também, e a 3ª Canudos localiza-se afastada do epicentro do conflito de outrora. A região Nordeste da Bahia (palco do conflito no final do século XIX) ainda encontra-se em dificuldades de todas as partes e seu IDH não é animador. O livro que se encontrava com Conselheiro foi aparentemente esquecido e, hoje, o sertanejo não tem outras opções para entender a Bíblia, a não ser por ele mesmo ou pela retórica alheia diversa que está longe de ser tão poderosa e peculiar quanto à de Antonio Conselheiro.

    O Sertão verdadeiro continua antigo em sua forma de fazer história e na sua organização social. A “modernidade” chegou com formas antagônicas (sem sustentabilidade) e não conseguiu transformar o conceito de Sertão na vida diária do sertanejo para um sítio mais humano. O progresso foi impiedoso para com a caatinga e a subserviência é imperante nas relações sociais. O Sertão não merece este progresso predador que aí está, mas necessita que a situação dos que desejam continuar por lá, possa trazer de fato, dignidade e respeito ao seu povo e a convivência sustentável com o meio ambiente que é tão hostil e tão misterioso ao mesmo tempo.