terça-feira, 13 de janeiro de 2015

Conselheiro – Missão Abreviada

Conselheiro – Missão Abreviada





      Há pouco tempo tive acesso ao livro datado do século XIX(1ª edição em 1859, provavelmente) que o conselheiro Antonio tivera em suas mãos e que, através do mesmo, obtivera a capacidade sábia de pregar para um sertão tão faminto de religião presencial. Conselheiro sempre fora para muitos um fanático messiânico e outras afirmações aceitas pelo senso comum. Porém, quando nos defrontamos com o livro Missão Abreviada do padre português Manoel José Gonçalves Couto, vemos que, este livro, tão pouco conhecido pelos que se interessam pelo fato histórico do Belo Monte, pode ter sido um norte na vida de Conselheiro em relação à sua capacidade de atrair multidões em torno de um projeto de vida, calcado na espiritualidade e no legado do cristianismo, tão arraigados no sertão nosso de cada dia.
     Fato é que, lendo uma de suas quase mil páginas (isso mesmo, quase mil páginas), nos defrontamos com uma obra de alto brilho, mesmo que não seja tão afamada no meio literário, pois se tratava de um instrumento de evangelização e contenção do protestantismo da época, sendo também o livro português mais editado do século XIX, só perdendo para a Bíblia Sagrada. Orações e trechos bíblicos com um português ainda com umas palavras sem uso hoje, mas que fascinam pela lógica direta e reflexiva da vida cristã e do apego a Deus, Jesus e Maria Santíssima. Assim, pecado, luxúria, medos, inveja, fim dos tempos e deveres dos cristãos são transcritos de forma objetiva e mostram que a retórica daquela época tinha seus modos particulares e peculiares de falar sobre religião.
  Conselheiro tivera seu papel fundamental no fortalecimento do catolicismo sertanejo. Organizou obras em cemitérios, capelas e igrejas que hoje ainda são marcos de uma arquitetura sertaneja e peculiar de um povo. Um povo empobrecido e faminto de tudo não aceitaria trilhar um caminho sem esperanças concretas. Conselheiro tinha saberes que se acumularam ao longo de décadas de pregação pelo semiárido brasileiro e seu sustentáculo religioso era, senão, seu inseparável livro Missão Abreviada, além da Bíblia Sagrada e as Horas Marianas, que serviam como seus missais e roteiros de pregação. Este primeiro livro merecia ser lido pelo beato Antonio, pois conciliava a busca por Deus e a dignidade do ser humano em um lugar tão desumano como ainda é o Sertão.
    Em sua página primeira, o padre autor anuncia que a mesma obra esteja eleita para sacerdotes e para pessoas que se afeiçoam em pregações públicas, o que garantiria e afirmava que o Conselheiro tinha sim, esta autorização para pregar a palavra sagrada e seus mistérios mais desafiadores. Os pedidos do padre autor eram de que este livro fosse lido por pessoas alfabetizadas e que tivessem uma vida singular no meio da multidão. E isto o Conselheiro tinha de sobra, pois o seu carisma era de uma maneira tão forte e consistente que incentivava a modificação radical de um Sertão triste de norte a sul e de leste a oeste.
     Assim, o padre Manoel José Gonçalves Couto pede na folha de rosto de sua obra:
Missão abreviada - para despertar os descuidados, converter os pecadores e sustentar o fructo das missões. É destinado este livro para fazer oração, e instruções ao povo, particularmente ao povo d’aldeia. Obra utilíssima para os parochos, para os capellães, para qualquer sacerdote que deseja salvar almas, e finalmente para qualquer pessoa que faz oração pública.

     Antonio conselheiro estava apto a pregar suas orações e sentimentos a qualquer pessoa, pois obtivera através deste livro a capacidade de não apenas ler ou ensinar palavras e lições vãs. Pelo contrário, o fazia com respeito e sinceridade que são necessários ao homem que sai pelo mundo pregando o Evangelho. Obstinado que era, o Beato transforma-se em mensageiro bem-aventurado de uma palavra que faltava ao sertanejo, pois o este seria renegado a segundo plano nos afazeres de alguns sacerdotes. Configura-se assim que, ao contrário do se fazia naquela época, a palavra de Deus deveria ser celebrada por todos aqueles que a buscavam. Despertar os descuidados que estavam sob a égide de que a vida não mudaria para melhor. Porém, o Conselheiro conseguiu tirar o melhor que o livro poderia oferecer: a concretude de uma esperança.
    Talvez este livro não seja tão conhecido aqui no Brasil devido a sua ligação com o beato Conselheiro, pois se imagina que após os fogos de Canudos, algumas pessoas resolveram varrê-lo do mapa e das mentes brasileiras. A velha Canudos está submersa, a segunda Canudos também, e a 3ª Canudos localiza-se afastada do epicentro do conflito de outrora. A região Nordeste da Bahia (palco do conflito no final do século XIX) ainda encontra-se em dificuldades de todas as partes e seu IDH não é animador. O livro que se encontrava com Conselheiro foi aparentemente esquecido e, hoje, o sertanejo não tem outras opções para entender a Bíblia, a não ser por ele mesmo ou pela retórica alheia diversa que está longe de ser tão poderosa e peculiar quanto à de Antonio Conselheiro.

    O Sertão verdadeiro continua antigo em sua forma de fazer história e na sua organização social. A “modernidade” chegou com formas antagônicas (sem sustentabilidade) e não conseguiu transformar o conceito de Sertão na vida diária do sertanejo para um sítio mais humano. O progresso foi impiedoso para com a caatinga e a subserviência é imperante nas relações sociais. O Sertão não merece este progresso predador que aí está, mas necessita que a situação dos que desejam continuar por lá, possa trazer de fato, dignidade e respeito ao seu povo e a convivência sustentável com o meio ambiente que é tão hostil e tão misterioso ao mesmo tempo. 

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